sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Os corredores do Hospital

“Os Corredores, o Café e o Relógio''


Nos corredores de um hospital sempre apressado, onde passos ecoam histórias que ninguém conta, dois olhares se cruzavam diariamente. Eram apenas cumprimentos rápidos, um “bom dia” tímido, um relance curioso. Nada profundo, nada assumido — mas havia algo ali. Algo que um reconhecia no olhar do outro, mesmo sem saber nome, história ou destino.

Até que um dia tudo se dissolveu.

Ele enfrentou um problema sério de saúde no trabalho. A empresa, à qual ele havia dado corpo, força e lealdade, simplesmente o dispensou. Sem cerimônia. Sem acolhimento. Um número substituído por outro. Depois disso, desapareceu dos corredores e da rotina. Nunca mais foi visto.

O tempo passou.

E então, pelas redes sociais, aquele rosto reapareceu — agora atrás de uma foto distante, quase irreconhecível. A conversa começou despretensiosa, mas logo ele se abriu, falou da própria vida, dos medos, das marcas deixadas pela empresa que o descartou. Havia bloqueios nele, conflitos, feridas antigas que ainda sangravam.

A troca existiu, foi leve, sincera. Mas havia turbulências no caminho.
E, diante de tanta confusão interna, o aplicativo foi desinstalado.
Fim de conversa. Fim de ciclo.

Até que, um tempo depois, o aplicativo voltou… e com ele, a conversa também.

Ele reapareceu com outra energia. Falou dos amigos, dos cafés, das vontades simples. Um convite surgiu, e um café foi marcado. O encontro fluiu, cheio de risadas tímidas e verdades ditas no meio do caminho. A conexão parecia renascer.

Mas, conforme se abria, deixava escapar uma visão dolorida: acreditava que mulheres só se aproximavam para aproveitar situações, que havia sido ferido, usado, enganado. Falava de um amor antigo como se fosse prova de que sentimentos verdadeiros não existiam mais.
Essa visão chocou com ideias diferentes, com uma forma diferente de enxergar o amor, o cuidado, a entrega.

Veio o choque de percepções.
Veio o afastamento.
Veio o bloqueio nas redes sociais.

Silêncio.

Depois, uma nova abertura: mensagens pelo WhatsApp.
As conversas voltaram, mais maduras, mais cautelosas.
O encontro aconteceu novamente.
Houve carinho, houve proximidade, houve envolvimento.
Mas não houve entrega mútua.

Ele dizia que tudo dele acontecia “no tempo dele”.
Respostas, conversas, presença — tudo regulado pelo ritmo que escolhia.
Não queria pressão, não queria cobrança, não queria compromisso.
Queria liberdade total, sem entender que atenção não é prisão, é afeto.
E mesmo sem perceber, a falta dele começava a gerar buracos.
Buracos que deixavam claro que ele estava cada vez mais distante, mesmo quando parecia perto.

Até que, em uma conversa marcante, ele disse:

“Eu estou onde devo estar: no trabalho.”

E essa frase pesou.
Pesou porque ele não viu que o primeiro trabalho pelo qual deu o próprio sangue o descartou.
E que, se repetir a mesma entrega cega, o segundo fará exatamente igual.
A vida tem um ciclo cruel quando não aprendemos a nos proteger.

Enquanto isso, do outro lado da história, havia alguém vivendo ansiedade, depressão, burnout, fragilidades que pediam cuidado, não distanciamento. Alguém que antes era coragem pura, movimento, impulso — e que agora recuava por medo.
Não por falta de vontade, mas por falta de força.

Ele não queria compromisso.
Não queria exclusividade.
Não queria vínculo profundo.
E isso apagou qualquer chance real de crescimento a dois, mesmo com todo o carinho que existiu nos momentos bons.

E assim a história se completa:

Dois olhares que nasceram num corredor.
Um desencontro causado pela vida.
Uma reaproximação pelas redes.
Conversas intensas, cafés, verdades ditas.
Conflitos, medos, bloqueios.
Afastamentos e retornos, cada um com sua dor.
E, no fim, dois caminhos caminhando paralelos, mas não juntos.

Ele, ainda preso ao trabalho que ocupa todo o tempo.
Ela, tentando se reconstruir dentro das próprias cicatrizes.
Ambos com valor.
Ambos com história.
Ambos com algo bonito que existiu — mesmo que breve.
E ambos cientes de que, um dia, se o tempo curar e o medo se silenciar, talvez uma conversa tranquila, doce e suave possa acontecer novamente.

Mas, por agora, cada um segue o próprio ritmo.
Sem vilões.
Sem culpados.
Só seres humanos tentando não se quebrar de novo.

Simplesmente Eu 

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