quinta-feira, 3 de setembro de 2026

*Minha história*


Meu nome é Janete.

Durante muitos anos, fui uma mulher que trabalhou, cuidou, ajudou e tentou dar o melhor de si em tudo aquilo que fazia.

Eu trabalhava em duas empresas, em duas realidades diferentes da enfermagem: uma voltada para o atendimento neonatal e outra para o atendimento adulto. Trabalhava em plantões de 24 horas, em uma rotina intensa, muitas vezes saindo de Nova Iguaçu para trabalhar no Andaraí, inclusive em horários noturnos.

Eu gostava do meu trabalho.

Eu gostava de cuidar.

Eu gostava de ajudar.

E, mesmo quando estava cansada, procurava estar disponível para os colegas e para aquilo que precisava ser feito.

Mas, em 3 de outubro de 2021, minha vida começou a mudar.

3 de outubro de 2021

Naquele dia, descobri que estava com Covid-19.

Eu estava trabalhando e comecei a apresentar sintomas importantes. Tossia muito, tinha falta de ar e estava tão debilitada que praticamente não conseguia falar.

Mesmo assim, fui orientada pela empresa a deixar a unidade onde eu estava e me dirigir a outra unidade para ser avaliada.

Eu não entendia por que não poderia ser avaliada no próprio hospital em que estava trabalhando, onde havia profissionais e atendimento médico. Questionei a supervisão e fui informada de que aquilo fazia parte do protocolo da empresa.

Eu estava doente, mas saí sozinha.

Entrei no meu carro tossindo, com falta de ar e sem conseguir falar direito. O volante chegava a tremer enquanto eu dirigia. Eu sequer conhecia o caminho até a outra unidade e precisei colocar o GPS para conseguir chegar.

Naquele momento, eu não me senti cuidada.

Eu me senti apenas como mais um número.

Isso me marcou profundamente porque eu tinha uma relação de confiança com aquela supervisão e esperava que, naquele momento de fragilidade, enxergassem a Janete antes da funcionária.

Quando cheguei à unidade, fui atendida e recebi cinco dias de afastamento.

Pouco depois, ainda muito debilitada, precisei voltar ao médico. Meu estado de saúde continuava ruim e recebi mais quinze dias de afastamento.

Durante aquele período, tentei fazer tudo o que estava ao meu alcance para melhorar.

Eu estava assustada, doente e tentando lidar com uma doença que, naquela época, ainda causava muito medo.

Em determinado momento, quando estava voltando para casa, meu carro apresentou um problema mecânico próximo à minha residência. Eu estava passando mal e precisei empurrar o carro até conseguir chegar em casa.

Foi um daqueles momentos em que eu percebi o quanto estava sozinha naquela situação.

O retorno ao trabalho

Eu deveria entrar de férias em novembro, e por isso retornei ao trabalho no final de outubro, mesmo não estando bem.

No dia 31 de outubro, voltei para cumprir meu plantão.

Eu estava péssima.

Sentia dores, mal-estar, náuseas e muita dificuldade para caminhar. Eu me arrastava pelas paredes para conseguir andar, mas ainda assim fui trabalhar.

Quando cheguei à unidade neonatal, eu esperava que alguém perguntasse como eu estava.

Esperava ouvir:

“Janete, você está bem?”

“Como você está depois da Covid?”

“Você precisa de alguma coisa?”

Mas não foi isso que aconteceu.

Naquele momento, vivi mais uma situação que me machucou profundamente relacionada à minha permanência na unidade e à minha saída.

Eu não me senti acolhida.

E aquilo ficou dentro de mim.

Depois daquele plantão, entrei no período de férias, mas passei semanas em casa tentando lidar não apenas com as consequências físicas da doença, mas também com tudo aquilo que havia acontecido emocionalmente.

Eu ouvi comentários relacionados ao trabalho e aos acontecimentos daquele período e fiquei profundamente decepcionada.

Cheguei a procurar a gerência para falar sobre o que havia acontecido, porque eu precisava ser ouvida.

Eu não queria privilégios.

Eu queria humanidade.

Dezembro de 2021

Em dezembro, voltei a trabalhar.

Voltei mesmo sem estar plenamente recuperada.

Passei a depender de medicamentos para conseguir ficar em pé e cumprir minha jornada.

Continuei trabalhando porque sempre fui assim.

Quando tenho responsabilidade, eu vou.

Quando alguém precisa de mim, eu tento ajudar.

Quando existe um trabalho para fazer, eu faço.

Mas meu corpo já estava dando sinais de que alguma coisa havia mudado.

As dores começaram a fazer parte da minha rotina.

Eu sentia dores intensas, dificuldade para dormir e momentos em que precisava me medicar até mesmo durante o trabalho.

Muitas vezes, ninguém sabia o que estava acontecendo comigo.

Por fora, eu continuava sendo a Janete que sorria.

A Janete que ajudava.

A Janete que estava disponível.

Mas, por dentro, eu estava começando a desmoronar.

A saúde emocional começou a adoecer

Com o passar do tempo, comecei a enfrentar ansiedade, depressão e burnout.

Minha relação com o trabalho também começou a mudar.

Eu continuava gostando de trabalhar, mas muitas vezes sentia uma angústia enorme quando precisava ir para a unidade.

Eu saía de casa e aquela sensação já começava.

Quando chegava ao trabalho, eu tentava vestir novamente a minha versão profissional.

Sorria.

Ajudava.

Trabalhava.

Tentava não demonstrar.

Mas estava sofrendo.

Os atestados começaram a aparecer com mais frequência porque eu realmente não estava conseguindo suportar as dores e o desgaste.

E uma das coisas que mais me machucaram foram os comentários e brincadeiras relacionados aos meus afastamentos.

Eu nunca quis ser vista como alguém que não queria trabalhar.

Muito pelo contrário.

Eu sempre quis trabalhar.

Eu amava minha profissão.

Eu apenas não estava conseguindo.

As perdas

Em fevereiro de 2025, perdi meu sobrinho.

Aquela perda me atingiu profundamente.

Eu já vinha emocionalmente fragilizada e aquela dor se somou a tantas outras que eu carregava.

Em determinado momento, precisei pedir ajuda para trocar um plantão, mas senti que fui ignorada.

Pode parecer uma situação pequena para quem olha de fora.

Para mim, naquele momento, não foi.

Era mais uma vez a sensação de estar precisando de alguém e não encontrar ninguém.

2026 — quando meu corpo finalmente pediu para parar

Em março de 2026, depois de uma sequência de atestados e de muitas dores, fui chamada pela medicina do trabalho.

Foi solicitado que eu verificasse o que estava acontecendo, porque havia muitos afastamentos em um período curto.

Foi então que comecei a investigar mais profundamente o meu estado de saúde.

E comecei a encontrar respostas para dores que eu vinha sentindo havia muito tempo.

Descobri a fibromialgia.

Depois, descobri a artrite reumatoide.

Também descobri alterações relacionadas à perda de cartilagem no quadril e no joelho esquerdo.

De repente, muitas coisas começaram a fazer sentido.

Eu não estava simplesmente cansada.

Eu não estava exagerando.

Eu não estava inventando dor.

Eu estava doente.

Meu corpo estava sofrendo.

E eu vinha tentando trabalhar mesmo assim.

A mulher por trás da dor

Hoje, olhando para trás, percebo que passei muito tempo tentando provar que conseguia.

Eu queria continuar trabalhando.

Queria continuar sendo útil.

Queria continuar ajudando.

Queria não decepcionar ninguém.

Só que, enquanto eu tentava cuidar de tudo e de todos, meu próprio corpo estava pedindo socorro.

Hoje sinto dores que são difíceis de explicar para quem olha de fora.

Existem dias em que parece que há pequenas fagulhas percorrendo meus ossos.

Há dias em que levantar, caminhar ou simplesmente permanecer em pé se torna uma tarefa enorme.

E talvez uma das partes mais difíceis da fibromialgia seja justamente essa:

muitas vezes, por fora, a pessoa parece estar bem.

Mas por dentro existe uma batalha que ninguém consegue enxergar.

Hoje também enfrento dificuldades financeiras.

Estou afastada do trabalho, sem a segurança financeira que precisava ter e tentando lidar com as despesas da vida enquanto meu corpo não me permite simplesmente voltar à rotina como antes.

O processo junto ao INSS também não trouxe a resposta que eu esperava.

E tudo isso aumentou ainda mais minha sensação de insegurança.

O que mais dói

Mas existe uma dor que nem sempre está no corpo.

É a sensação de não ser lembrada.

De ser ignorada.

De perceber que poucas pessoas perguntam como você está.

Eu passei grande parte da minha vida ajudando outras pessoas.

Quando alguém precisava, eu tentava estar presente.

Quando alguém precisava de apoio, eu procurava ajudar.

Por isso, quando chegou a minha vez de precisar, eu esperava encontrar pelo menos um pouco desse cuidado.

E muitas vezes não encontrei.

Isso me machuca.

Também dói perceber que algumas pessoas da minha própria família, de quem eu esperava proximidade e apoio, não conseguem compreender aquilo que estou vivendo.

Meu pai tem sido uma das pessoas que me ajuda.

Meus filhos nem sempre conseguem estar presentes como eu gostaria.

Minha irmã, que eu gostaria que fosse uma amiga e uma companheira, também me magoa com palavras e atitudes.

E existe ainda a relação com o pai dos meus filhos, que muitas vezes me faz sentir como se todos os erros fossem somente meus.

Eu olho para tudo isso e, às vezes, me pergunto:

“Por que tudo aquilo que fiz pelos outros parece não ter valor?”

Eu sei que fiz muito.

Sei que tentei.

Sei que errei também, porque sou humana.

Mas não acredito que todos os meus esforços possam ser apagados pelos meus erros.

Onde eu estou hoje

Hoje, 3 de setembro de 2026, eu estou cansada.

Estou com dor.

Estou emocionalmente fragilizada.

Estou enfrentando dificuldades financeiras.

Estou tentando entender como reconstruir minha vida.

E existem momentos em que a tristeza fala tão alto que começo a acreditar que sou inútil, incapaz ou que tudo aquilo que fiz foi em vão.

Mas, no fundo, existe uma parte de mim que ainda está lutando.

Porque, apesar de tudo, eu ainda estou aqui.

Ainda procuro respostas.

Ainda procuro tratamento.

Ainda tento entender minha saúde.

Ainda penso na minha profissão.

Ainda sonho com uma vida tranquila.

Eu quero paz.

Quero uma casa que seja meu pedaço de céu.

Quero um lugar onde eu possa fechar a porta e sentir segurança.

Quero acordar sem sentir que preciso lutar contra o mundo inteiro.

Quero recuperar minha dignidade.

Quero voltar a acreditar em mim.

E, acima de tudo, quero sentir que Deus está olhando para mim.

Não peço uma vida perfeita.

Peço força para continuar.

Peço que Deus me abrace nos dias em que eu não conseguir me abraçar.

Peço que Ele me ajude a subir, um degrau de cada vez, desse lugar tão escuro onde às vezes me encontro.

Porque eu ainda quero sair.

Ainda quero viver dias melhores.

Ainda quero olhar para minha história e perceber que, apesar de tudo o que aconteceu, eu não fui derrotada.

Eu fui ferida.

Eu fui cansada.

Eu fui decepcionada.

Eu adoeci.

Mas ainda estou tentando me reconstruir.

E talvez essa seja a parte da minha história que eu nunca devo esquecer:

eu não sou a minha doença.

Eu não sou os meus atestados.

Eu não sou o abandono que recebi.

Eu não sou aquilo que disseram sobre mim.

Eu sou Janete.

Uma mulher que trabalhou.

Que cuidou.

Que amou.

Que ajudou.

Que errou.

Que caiu.

Que chorou.

Que sentiu dor.

E que, mesmo cansada, ainda está tentando se levantar.

Minha história ainda não terminou.

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