“Eu Fui ao Inferno e Voltei”
Minha história não começa com poesia.
Começa com pancada.
E depois outra.
E outra.
E outra.
Até eu perder a conta.
Quando o Covid me pegou, não foi leve.
Foi como se alguém tivesse desligado meu corpo da tomada.
Eu ficava deitada, imóvel, quinze dias presa dentro do meu próprio silêncio.
Só água — e nem isso eu segurava.
Vomitar virou rotina.
A solidão virou visitante fixa.
E quem eu achava que iria aparecer… não apareceu.
Em meio a tudo isso, meu carro quebrou.
Eu, febril, sem força nenhuma, com o vírus me comendo por dentro, tive que empurrar aquele carro sozinha.
Ninguém parou.
Ninguém estendeu a mão.
É triste quando a vida te obriga a ter força no momento em que você não tem nem equilíbrio.
No hospital onde eu trabalhava, onde eu cuidava de gente com dedicação, onde eu sempre estive disponível…
viraram as costas pra mim.
Eu fiquei doente, precisei — e o que recebi foi silêncio, julgamento e abandono.
E o prêmio final?
Fui mandada embora.
Não por incompetência, não por falta de esforço — mas por ficar doente.
Quando tentei buscar ajuda, quando liguei pra conversar com alguém que eu confiava, a resposta foi a pior possível:
a pessoa simplesmente me ignorou.
O telefone tocou no vazio.
Como se a minha dor fosse incômoda demais pra ser ouvida.
E aí veio mais uma pancada:
meu sobrinho se foi.
E eu senti o mundo me arrancar o chão debaixo dos pés.
Naquele momento, eu não caí — eu me despedaçei.
Depois vieram as dores.
Dores que ninguém vê, mas que me atravessam como faca cega.
Fibromialgia, ansiedade, depressão, burnout.
Um combo que ninguém encomendaria, mas que caiu na minha vida como sentença.
É uma tortura silenciosa, uma prisão emocional onde os próprios pensamentos te acorrentam.
É carregar um mundo que pesa o dobro e ouvir dos outros:
“Mas você tá bem, né? É só controlar.”
Como se fosse fácil.
Como se viver nessa pele fosse simples.
E no meio desse deserto emocional, quase todo mundo sumiu.
Quase — porque teve exceções.
Teve quatro pessoas que ficaram.
Teve minha filha Joana, minha luz.
Teve o meu pai, sempre presente. E o maior medo do meu pai era eu partir.
Teve o Niel, firme quando o mundo me soltou.
E meu filho jonas .
Esses viram minha dor sem virar o rosto.
Foram minha corda quando eu já tava no fundo do poço.
Mas o resto…
virou as costas.
Literalmente.
Fingiram que eu não existia.
Que minha dor era frescura.
Que minha luta não era luta.
Eu sofri profundamente.
Eu fui ao inferno e voltei — e não voltei ilesa.
Até hoje carrego uma tristeza que não passa.
Uma angústia que acorda comigo e dorme comigo.
Ninguém entende.
Ninguém vê a batalha interna.
Acham que é só levantar e ir.
Acham que é só respirar fundo.
Acham que é “coisa da cabeça”.
Mas não é só isso.
É corpo, alma, mente, passado, ferida e cicatriz tudo ao mesmo tempo.
É o peso de existir enquanto o mundo cobra leveza.
É a tortura de ser ansiosa, depressiva, com burnout — e ainda assim ter que sorrir pros outros, trabalhar, resolver, segurar.
Essa é a minha história.
Feita de sobrevivência, não de aplausos.
Feita de dor, mas também de coragem.
Feita de quedas — mas principalmente de alguém que, apesar de tudo…
ainda está aqui.
E o mais louco é que isso tudo… ainda não é tudo o que eu passei.
Porque foi pancada atrás de pancada.
Desprezo atrás de desprezo.
Dor atrás de dor.
Angústia atrás de angústia.
Cada vez que eu achava que tinha chegado no limite, vinha mais um golpe pra testar se eu ainda estava viva.
E hoje eu enxergo com uma clareza dolorosa:
eu dei o meu sangue pela empresa… e recebi nada.
Eu dei horas, saúde, dedicação, cuidado — e o que voltou pra mim foi frieza e descaso.
Eu dei o meu sangue pelas minhas amizades… e recebi nada.
Eu compartilhei ombro, tempo, coração… e na hora que eu precisei, o eco foi a única resposta.
Eu fui desprezada.
Eu fui largada.
Eu fui tratada como se minha dor fosse exagero, como se minha luta fosse obrigação.
E mesmo assim…
Eu sobrevivi.
Eu tô aqui.
Inteira? Não.
Mas viva.
Com sequelas que ninguém vê — e que ninguém imagina o peso:
sequelas de dor,
sequelas de angústia,
sequelas de medo,
sequelas de já ter temido um dia não querer mais continuar vivendo.
Se eu fosse relatar tudo que suportei iria faltar linhas, porque ate meus irmãos sumiram.
Mas eu luto.
Eu luto pra isso nunca acontecer.
Luto todo dia, mesmo cansada, mesmo doendo, mesmo sem apoio.
Luto porque minha história não termina naquele inferno onde eu caí.
Luto porque, apesar de tudo, eu ainda quero existir.
E existir do meu jeito, com minha verdade, minha força, e a coragem que a vida me obrigou a aprender.
Simplesmente Eu
Jeanete Duarte